Poesia e a (não?) salvação do mundo em Pedro Eiras

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DOI:

https://doi.org/10.21747/21828954/ely26a9

Resumo

A partir da polissemia presente nos usos da palavra salvação na poética de Pedro Eiras, mais especificamente em seu tríptico Inferno (2020), Purgatório (2021) e Paraíso (2022), apresentamos uma reflexão em torno dos modos pelos quais os poemas desses livros possibilitam aos leitores, como forma de salvação dos sujeitos no mundo pela poesia, contrapor longos períodos de pausa e de ócio produtivo aos meios de aceleração da vida contemporânea. A nosso ver, os poemas de Eiras exortam a pensar criticamente o espaço contemporâneo a partir da filosofia de Byung-Chul Han (2017, 2018, 2021) sobre a “sociedade do cansaço” e a “sociedade paliativa” vigentes nas formas de manipulação da psicopolítica neoliberal. Ao deambular pelos espaços urbanos entre seus semelhantes, o sujeito poético se depara com as imposições da vida neoliberal e digital, que comandam as nossas idiossincrasias e levam ao infarto da alma. Entendemos, então, que as perspectivas de salvação do mundo, mesmo crítica e ironicamente latentes no texto poético de Eiras, urge no decreto da pausa, na valorização do ócio e no tédio produtivo do tempo presente. Logo, vários poemas dos livros Inferno, Purgatório e, sobretudo, do Paraíso assumem, em nossa leitura, um caráter pedagógico e terapêutico. Eles possibilitam aos leitores de poesia uma lição ética, que os leva a refletir sobre como funcionam os dispositivos psíquicos de manipulação da nova ordem vigente por meio de uma poesia afetiva, na qual poeta e sujeitos são reféns das armadilhas neuronais presentes nas diversas camadas dos infernos, purgatórios e paraísos artificiais típicos do século XXI. Logo, na voz do poeta, se não houver o decreto imediato da pausa e do descanso, não há perspectivas mínimas de salvação da alma, tal como se evidencia de forma decadente no Paraíso, que encerra o tríptico de Eiras.

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Publicado

2026-03-13

Como Citar

Paulo Sales. (2026). Poesia e a (não?) salvação do mundo em Pedro Eiras. ELyra: Revista Da Rede Internacional Lyracompoetics, (26), 139–155. https://doi.org/10.21747/21828954/ely26a9

Edição

Secção

Derivas Críticas